sábado, 9 de julho de 2016

Assistente de um cavalo



 Capitulo 1

Eu simplesmente não acredito nessa palhaçada comercial e capitalista chamada amor. Antes do capitalismo as pessoas só casavam-se por interesse, o amor apenas existia nas trovas medievais e nos versos de Camões.  A gente fica obcecado, tentando encontrar a verdadeira felicidade com a pessoa ideal, que vai surgir e resolver todos os nossos problemas. Você se apaixona, se entrega de corpo e alma, então o canalha vai lá e derruba todas as suas fantasias. Te faz cair do cavalo batendo de cara no chão com a realidade. O molhado e salgado vem para borrar a maquiagem do rosto. Depois disso, a raiva vem como um curativo e recupera o coração ferido. O problema é que, uma vez recuperado, ele não quer de novo ser machucado. Veste uma armadura rígida e encorpada e, mesmo por quem tirar a armadura parece valer a pena, ele não quer tirar. O relacionamento esfria, você não quer mais continuar. A coisinha vermelhinha dentro do peito se lesiona novamente, só que dessa fez por ter sido o mentor do açoitamento dos sentimentos de outrem.

Bem, assim foi comigo. Depois de cinco tentativas de relacionamentos frustrados, eu não quero mais me apaixonar. Há coisas mais legais para se fazer na vida, como encher a cara de cachaça com os amigos no show de uma puta banda de rock, viajar no quarto aproveitando o quente de um café e lendo o bom livro, passear pelas vitrines de um shopping com as amigas comtemplando aquele monte de coisas que você nunca vai poder comprar, ficando ligeiramente depressiva  e se consolando no cinema quando a grana dar, admirar um por do sol bacana com ex-coleguinhas da faculdade sentados numa roda cantando, batendo palmas e tocando violão. Esta tem sido a minha vida durante os últimos dois anos e meio. O chato é que muitas das amigas falsas e traíras largaram os nossos hobbys e caíram de cabeça numa droga de casamento. Sim é sério, da para levar uma vida feliz sem homens. Não totalmente sem homens, corrigindo, eu tenho muitos amigos do sexo masculino. Como amigos eles prestam, como pretendentes, não. Quando um desses seres começam a fazer falta, um bom e grande consolo ajuda no processo.
O chato é que, nos últimos oito meses, o trabalho tem me impedido um pouco de curtir melhor a vida. Não que eu esteja insatisfeita com meu trabalho, que é isso! Eu dei uma sorte do caralho de ser chamada para trabalhar numa empresa tão grande assim que sai da faculdade. O salário é tão satisfatório que, em apenas oito meses, juntei uma graninha e estou financiando o meu primeiro apartamento. É um ovo, mas pelo menos me livrei dos gritos da minha mãe e dos meus irmãos chatos. Minha mãe, coitada, mais uma incluída ao clube das iludidas. Tem filhos de três casamentos diferentes, no entanto nenhum pai dentro de casa. Estou louca para que minha dedicação e compromisso se transformem em resultados satisfatórios para a empresa e sejam convertidos em promoção e aumento de salário. Dessa forma, eu ajudo a minha mãezinha e também as preguinhas pequenas que eu tanto amo. A empresa é ótima, o trabalho é bom, adoro os meus colegas de lá, mas como nada é perfeito, tinha que ter algo para se reclamar. Meu chefe, o cara mais imbecil que já conheci. Grosso, prepotente, arrogante, estúpido, metido, autoritário. O cara não é um simples diretor de empresa, é um ditador e eu sou obrigada a atura-lo todos os dias. Trata todo mundo mau. Não é daquele tipo de pessoa que trata mau apenas aqueles que estão abaixo dele, o infeliz maltrata todo mundo mesmo. É um autentico cavalo. Apesar do seu jeito meigo e fofo que eu acabei de descrever, nunca tive algum problema com ele. Não dou ousadia para que venha me dar as clássicas queimadas que os corredores da empresa falam. Pelo menos nunca tive problemas com ele até hoje.
 – Silvia! – O cretino teve a audácia de me gritar. Minha sala é colada com a dele, ou melhor dizendo, é um ovo com porta colocado dentro da sala dele. Não havia necessidade alguma de me gritar. Sai injuriada, mas mantinha a postura séria exigida num ambiente corporativo.
 – Em que posso ajudar? – De frente para a mesa dele eu perguntei olhando aquele terno engomado preto com a gravata vermelha passando pela lapela branca da camisa.
 – Traga meu café. Eu quero bem forte, sem leite e com pouco açúcar.
– Quê? – Sem o mínimo de compostura, eu perguntei mais do que indignada. – Desculpa, mas eu sou sua assistente, não sua secretária. Não estou aqui para pegar o seu café. – Cruzei os braços olhando firmemente em seus olhos castanhos claros da cor de avelã.
– Bom, se você não pode pegar o meu café, eu vou procurar uma assistente que o faça. – Mal encarado como sempre, o patife debochou ameaçando-me.
– Não, senhor! – Eu disfarcei sorrindo querendo reverter à situação. – Que é isso! Eu só estava brincando. Já vou pegar o seu café, tudo bem? – O coisa ruim em forma de gente não me respondeu. Voltou sua atenção para o computador e passou a digitar ignorando-me como um cachorro. Me comendo de ódio, eu fui pegar a droga do café. Era um absurdo. Eu sou uma profissional competente e formada, estou fazendo mestrado e tudo isso para quê? Para o animal do meu chefe me pedir café e eu lhe dar. Botei uma quantidade de pó de café absurda para apenas uma xicara. Ele não quer forte? Como uma colaboradora obediente é o que vou fazer. Entreguei-lhe a xicara com o pires nas mãos. Ele colocou em sua mesa. Miserável! Sequer me agradeceu. Pedi licença dei as costas e caminhei para minha sala. O som grave da voz dele me fez virar de novo para ele.
– Pegue um copo descartável! – Tirano desgraçado! Para que esse autoritarismo todo só para me pedir um copo descartável? Peguei a droga do copo e entreguei evitando olhar na cara dele. A vontade que eu tinha era de pegar aquele copo e enfiar  vocês sabem onde. A pena é que, sendo descartável, nem doeria nele tanto assim. Prendi o riso com meu pensamento escroto a respeito dele. Graças a Deus o pensamento ainda é algo privado.
– Mais alguma coisa? – Esforcei-me para dar um sorriso forçado fingindo ser cordial.  Por mim não dirigiria mais a palavra a ele, no entanto, não seria muito inteligente da minha parte sair sem questionar isso. O animal de terno poderia me chamar novamente antes de entrar para sala.
Derramou um pouco do café sobre o copo descartável e segurou-o oferecendo-me. – Beba!
– Eu não gosto de café. – Mentira. Eu tomo, mas não forte daquele jeito. Prefiro com leite e com mais açúcar.
– Não perguntei se você gosta ou deixa de gostar. Eu mandei beber. Não posso confiar em tomar sem antes me certificar de que você não colocou nada aqui dentro.
– O senhor só pode estar brincando comigo, não é? Não é possível que esteja falando sério.
– Sim, eu estou. Beba o café.
As lágrimas encheram meus olhos. Virei a droga do copo descartável e tomei o café. - Satisfeito? – Amassei o copo querendo amassar a cara dele e joguei no lixo. Embora estivesse como um fio de alta tensão desencapado, não deixei transparecer a minha raiva.
– Sim. Agora eu posso beber o meu café em segurança. – Minha respiração ficou ofegante. Eu queria mata-lo. A xicara de café foi ao encontro de seus lábios bem desenhados, mas desceu rapidamente. – Essa porcaria está fria. Leve-a para fora daqui. – A voz arrogante me fez estremecer de ódio.
Eu não acredito! Tanta presepada para sequer beber o café. E eu achando que trazer cafezinho para o chefe era humilhação. As meninas nos corredores viviam dizendo que era impossível que ele nunca tivesse feito nenhuma estupidez comigo. Por vezes eu até achava que era exagero do povo, no entanto o meu dia chegou. O que posso dizer para mim sentada nessa porcaria de cadeira da mesa ao lado do curral? Apenas uma única frase, bem vinda ao clube!
Depois de uma boa ducha, fui para cama ler os meus maravilhosos romances no quarto. Pelo menos nos livros um romance é perfeito. Em geral, apenas alguns capítulos antecedem o meu sono embelezador, contudo, ao segundo livro, os olhos custavam a fechar pensando no ódio que eu tinha desse cara. Se um dia eu achasse coisa melhor, certamente me juntaria como outros empregados humilhados, que não são poucos, e abriria um processo por danos morais. Por enquanto, essa não era uma boa ideia.
Camisa social cinza escura dobrada até a altura dos cotovelos, sapato e calça também social e pretos, um relógio dourado no punho e a barba por fazer. Essa foi a cena com a qual me deparei quando cheguei no escritório do ordinário no dia seguinte. Dizem por aí que ninguém é cem por cento bom nem cem por cento ruim. Nunca vi nesse homem sequer uma qualidade, a não ser uma única. O infeliz era um gato! Eu e as demais meninas durante o almoço costumávamos chama-lo de felinoequino. Muito sugestivo! Eu nunca o tinha visto sem paletó. Imaginei que tivesse um corpo atraente, mas nem tanto. A camisa social, não muito folgada, revelava músculos e definições maravilhosas. É melhor eu tirar o olho porque não curto zoofilia. Cavalo e ser humano não parece uma relação muito legal. Respeito quem gosta, mas não, não é o meu caso. Resumi minhas palavras a um bom dia não respondido, abaixei a cabeça e fui para minha sala. Caralho! Dar um bom dia não mata ninguém.
O balancete da empresa tinha que ser entregue até amanhã à tarde. Não faltava muito para terminar, eu poderia simplesmente ir para casa no meu horário usual e terminar amanhã pela manhã, só que eu não quis. O diabo é descarado! Vai que amanhã surge algum imprevisto e eu não consigo terminar? Fiquei na empresa até quatro horas depois de fechar o expediente. O funcionamento era em horário comercial, terminava as dezoito. As vinte e duas em ponto eu arrumei as minhas coisas para sair. Agora sim tranquila. Cópias do balancete no meu pen drive, nos dois e-mails, no computador da empresa e impresso. Pronto! Estava tudo sobre o controle. O capeta teria que se esforçar muito para estragar a perfeição com a qual eu prevejo imprevistos. Abri a porta, sai da sala trancando-a com dificuldade, pois tinha três pastas grossas nas mãos. As pastas caíram e meus olhos escancararam quando virei para a mesa do meu chefe.
– Desculpa! – Completamente corada, meus olhos pregaram-se no chão para não olha-los. – Eu não sabia que o senhor ainda estava aqui e assim.
A mulher de vestido vermelho virou sentada para o outro lado da mesa onde não pudesse me olhar. Safada! Quando estava com o Harrison entre suas coxas não parecia nem um pouco envergonhada...
– Nem eu sabia que estava aqui. – Ajeitava a gravata listrada no pescoço e passou a mão alisando a camisa amarrotada. – O que fazia aqui até essa hora? A empresa não vai pagar hora extra por um serviço que ela não solicitou.
Engoli em seco. Acabo de pegar o cara na maior pregação com a loiraça e ele ainda tem animo para me humilhar. – Não se preocupe, senhor. Eu não fiquei pensando em hora extra. Só quis evitar qualquer contratempo com o balancete de amanhã. Ainda não instalaram internet em minha casa por isso tive que terminar aqui. Desculpe por te atrapalhar. – Sai cabisbaixa e segui pegando o metrô para o meu lar. Nunca imaginei que um homem tão sério como ele teria uma atitude tão baixa quanto se pegar com uma modelo dentro da empresa. Além do meu chefe, havia outra coisa que me incomodava um pouco na Madison Publicidade. A empresa é uma das mais conceituadas no ramo de publicidade. Vivia cercada de modelos e mulheres perfeitas por todos os cantos. A loira aguada que estava com o Harrison, por exemplo, era quase impecável. Tão bonita que chega dá raiva. É com mulheres como ela que homens como ele se relacionam, não com pessoas como eu. Ambos por interesse. Ela quer o dinheiro dele, ele uma mulher troféu e o que ela tem no meio das pernas. Não que eu esteja com ciúmes. Claro que não é isso. Não quero me envolver com alguém por um bom tempo, muito menos se esse alguém for tão estupido.
A vergonha de ter flagrado o diretor da empresa, deitado sobre o corpo de uma loira gostosa não me deixou sentir isso, no entanto, durante o banho a mão dele na coxa dela por dentro do vestido não sai da minha mente. Balancei bruscamente a cabeça tentando expulsar esse pensamento. O cansaço do trabalho me fez dormir que nem um anjinho.