Capitulo 1
Eu simplesmente
não acredito nessa palhaçada comercial e capitalista chamada amor. Antes do
capitalismo as pessoas só casavam-se por interesse, o amor apenas existia nas
trovas medievais e nos versos de Camões.
A gente fica obcecado, tentando encontrar a verdadeira felicidade com a
pessoa ideal, que vai surgir e resolver todos os nossos problemas. Você se
apaixona, se entrega de corpo e alma, então o canalha vai lá e derruba todas as
suas fantasias. Te faz cair do cavalo batendo de cara no chão com a realidade. O
molhado e salgado vem para borrar a maquiagem do rosto. Depois disso, a raiva vem
como um curativo e recupera o coração ferido. O problema é que, uma vez
recuperado, ele não quer de novo ser machucado. Veste uma armadura rígida e
encorpada e, mesmo por quem tirar a armadura parece valer a pena, ele não quer
tirar. O relacionamento esfria, você não quer mais continuar. A coisinha
vermelhinha dentro do peito se lesiona novamente, só que dessa fez por ter sido
o mentor do açoitamento dos sentimentos de outrem.
Bem, assim foi
comigo. Depois de cinco tentativas de relacionamentos frustrados, eu não quero
mais me apaixonar. Há coisas mais legais para se fazer na vida, como encher a
cara de cachaça com os amigos no show de uma puta banda de rock, viajar no
quarto aproveitando o quente de um café e lendo o bom livro, passear pelas
vitrines de um shopping com as amigas comtemplando aquele monte de coisas que
você nunca vai poder comprar, ficando ligeiramente depressiva e se consolando no cinema quando a grana dar,
admirar um por do sol bacana com ex-coleguinhas da faculdade sentados numa roda
cantando, batendo palmas e tocando violão. Esta tem sido a minha vida durante
os últimos dois anos e meio. O chato é que muitas das amigas falsas e traíras
largaram os nossos hobbys e caíram de cabeça numa droga de casamento. Sim é
sério, da para levar uma vida feliz sem homens. Não totalmente sem homens,
corrigindo, eu tenho muitos amigos do sexo masculino. Como amigos eles prestam,
como pretendentes, não. Quando um desses seres começam a fazer falta, um bom e
grande consolo ajuda no processo.
O chato é que, nos últimos oito meses, o trabalho
tem me impedido um pouco de curtir melhor a vida. Não que eu esteja
insatisfeita com meu trabalho, que é isso! Eu dei uma sorte do caralho de ser
chamada para trabalhar numa empresa tão grande assim que sai da faculdade. O
salário é tão satisfatório que, em apenas oito meses, juntei uma graninha e
estou financiando o meu primeiro apartamento. É um ovo, mas pelo menos me
livrei dos gritos da minha mãe e dos meus irmãos chatos. Minha mãe, coitada,
mais uma incluída ao clube das iludidas. Tem filhos de três casamentos
diferentes, no entanto nenhum pai dentro de casa. Estou louca para que minha
dedicação e compromisso se transformem em resultados satisfatórios para a
empresa e sejam convertidos em promoção e aumento de salário. Dessa forma, eu
ajudo a minha mãezinha e também as preguinhas pequenas que eu tanto amo. A
empresa é ótima, o trabalho é bom, adoro os meus colegas de lá, mas como nada é
perfeito, tinha que ter algo para se reclamar. Meu chefe, o cara mais imbecil
que já conheci. Grosso, prepotente, arrogante, estúpido, metido, autoritário. O
cara não é um simples diretor de empresa, é um ditador e eu sou obrigada a
atura-lo todos os dias. Trata todo mundo mau. Não é daquele tipo de pessoa que
trata mau apenas aqueles que estão abaixo dele, o infeliz maltrata todo mundo
mesmo. É um autentico cavalo. Apesar do seu jeito meigo e fofo que eu acabei de
descrever, nunca tive algum problema com ele. Não dou ousadia para que venha me
dar as clássicas queimadas que os corredores da empresa falam. Pelo menos nunca
tive problemas com ele até hoje.
– Silvia! – O cretino teve a audácia de me gritar. Minha sala é colada com a dele, ou melhor dizendo, é um ovo com porta colocado dentro da sala dele. Não havia necessidade alguma de me gritar. Sai injuriada, mas mantinha a postura séria exigida num ambiente corporativo.
– Silvia! – O cretino teve a audácia de me gritar. Minha sala é colada com a dele, ou melhor dizendo, é um ovo com porta colocado dentro da sala dele. Não havia necessidade alguma de me gritar. Sai injuriada, mas mantinha a postura séria exigida num ambiente corporativo.
–
Em que posso ajudar? – De frente para a mesa dele eu
perguntei olhando aquele terno engomado preto com a gravata vermelha passando
pela lapela branca da camisa.
–
Traga meu café. Eu quero bem forte, sem leite e com pouco açúcar.
–
Quê? – Sem o mínimo de compostura, eu perguntei mais do que
indignada. – Desculpa, mas eu sou sua assistente, não sua secretária. Não estou
aqui para pegar o seu café. – Cruzei os braços olhando firmemente em seus olhos
castanhos claros da cor de avelã.
–
Bom, se você não pode pegar o meu café, eu vou procurar uma assistente que o
faça. – Mal encarado como sempre, o patife debochou ameaçando-me.
–
Não, senhor! – Eu disfarcei sorrindo querendo reverter à situação. – Que é
isso! Eu só estava brincando. Já vou pegar o seu café, tudo bem?
– O coisa ruim em forma de gente não me respondeu. Voltou sua atenção para o
computador e passou a digitar ignorando-me como um cachorro. Me comendo de
ódio, eu fui pegar a droga do café. Era um absurdo. Eu sou uma profissional competente
e formada, estou fazendo mestrado e tudo isso para quê? Para o animal do meu
chefe me pedir café e eu lhe dar. Botei uma quantidade de pó de café absurda
para apenas uma xicara. Ele não quer forte? Como uma colaboradora obediente é o
que vou fazer. Entreguei-lhe a xicara com o pires nas mãos. Ele colocou em sua
mesa. Miserável! Sequer me agradeceu. Pedi licença dei as costas e caminhei
para minha sala. O som grave da voz dele me fez virar de novo para ele.
–
Pegue um copo descartável! – Tirano desgraçado! Para que esse autoritarismo
todo só para me pedir um copo descartável? Peguei a droga do
copo e entreguei evitando olhar na cara dele. A vontade que eu tinha era de
pegar aquele copo e enfiar vocês sabem
onde. A pena é que, sendo descartável, nem doeria nele tanto assim. Prendi o
riso com meu pensamento escroto a respeito dele. Graças a Deus o pensamento
ainda é algo privado.
–
Mais alguma coisa? – Esforcei-me para dar um sorriso forçado
fingindo ser cordial. Por mim não
dirigiria mais a palavra a ele, no entanto, não seria muito inteligente da
minha parte sair sem questionar isso. O animal de terno poderia me chamar
novamente antes de entrar para sala.
Derramou
um pouco do café sobre o copo descartável e segurou-o oferecendo-me. – Beba!
–
Eu não gosto de café. – Mentira. Eu tomo, mas não forte daquele jeito. Prefiro
com leite e com mais açúcar.
–
Não perguntei se você gosta ou deixa de gostar. Eu mandei beber. Não posso
confiar em tomar sem antes me certificar de que você não colocou nada aqui
dentro.
–
O senhor só pode estar brincando comigo, não é? Não é possível
que esteja falando sério.
–
Sim, eu estou. Beba o café.
As
lágrimas encheram meus olhos. Virei a droga do copo descartável e tomei o café.
- Satisfeito? – Amassei o copo querendo amassar a cara dele e
joguei no lixo. Embora estivesse como um fio de alta tensão desencapado, não
deixei transparecer a minha raiva.
–
Sim. Agora eu posso beber o meu café em segurança. – Minha respiração ficou
ofegante. Eu queria mata-lo. A xicara de café foi ao encontro de seus lábios
bem desenhados, mas desceu rapidamente. – Essa porcaria está fria. Leve-a para
fora daqui. – A voz arrogante me fez estremecer de ódio.
Eu
não acredito! Tanta presepada para sequer beber o café.
E eu achando que trazer cafezinho para o chefe era humilhação. As meninas nos
corredores viviam dizendo que era impossível que ele nunca tivesse feito
nenhuma estupidez comigo. Por vezes eu até achava que era exagero do povo, no
entanto o meu dia chegou. O que posso dizer para mim sentada nessa porcaria de
cadeira da mesa ao lado do curral? Apenas uma única frase, bem
vinda ao clube!
Depois
de uma boa ducha, fui para cama ler os meus maravilhosos romances no quarto.
Pelo menos nos livros um romance é perfeito. Em geral, apenas alguns capítulos
antecedem o meu sono embelezador, contudo, ao segundo livro, os olhos custavam
a fechar pensando no ódio que eu tinha desse cara. Se um dia eu achasse coisa melhor,
certamente me juntaria como outros empregados humilhados, que não são poucos, e
abriria um processo por danos morais. Por enquanto, essa não era uma boa ideia.
Camisa
social cinza escura dobrada até a altura dos cotovelos, sapato e calça também
social e pretos, um relógio dourado no punho e a barba por fazer. Essa foi a
cena com a qual me deparei quando cheguei no escritório do ordinário no dia
seguinte. Dizem por aí que ninguém é cem por cento bom nem cem por cento ruim.
Nunca vi nesse homem sequer uma qualidade, a não ser uma única. O infeliz era
um gato! Eu e as demais meninas durante o almoço costumávamos chama-lo de felinoequino. Muito sugestivo! Eu nunca
o tinha visto sem paletó. Imaginei que tivesse um corpo atraente, mas nem
tanto. A camisa social, não muito folgada, revelava músculos e definições
maravilhosas. É melhor eu tirar o olho porque não curto zoofilia. Cavalo e ser
humano não parece uma relação muito legal. Respeito quem gosta, mas não, não é
o meu caso. Resumi minhas palavras a um bom dia não respondido, abaixei a
cabeça e fui para minha sala. Caralho! Dar um bom dia não mata ninguém.
O
balancete da empresa tinha que ser entregue até amanhã à tarde. Não faltava
muito para terminar, eu poderia simplesmente ir para casa no meu horário usual
e terminar amanhã pela manhã, só que eu não quis. O diabo é descarado! Vai que
amanhã surge algum imprevisto e eu não consigo terminar? Fiquei na empresa até
quatro horas depois de fechar o expediente. O funcionamento era em horário
comercial, terminava as dezoito. As vinte e duas em ponto eu arrumei as minhas
coisas para sair. Agora sim tranquila. Cópias do balancete no meu pen drive,
nos dois e-mails, no computador da empresa e impresso. Pronto! Estava tudo
sobre o controle. O capeta teria que se esforçar muito para estragar a
perfeição com a qual eu prevejo imprevistos. Abri a porta, sai da sala
trancando-a com dificuldade, pois tinha três pastas grossas nas mãos. As pastas
caíram e meus olhos escancararam quando virei para a mesa do meu chefe.
–
Desculpa! – Completamente corada, meus olhos pregaram-se no chão para não
olha-los. – Eu não sabia que o senhor ainda estava aqui e assim.
A
mulher de vestido vermelho virou sentada para o outro lado da mesa onde não
pudesse me olhar. Safada! Quando estava com o Harrison entre suas coxas não
parecia nem um pouco envergonhada...
–
Nem eu sabia que estava aqui. – Ajeitava a gravata listrada no pescoço e passou
a mão alisando a camisa amarrotada. – O que fazia aqui até essa hora? A empresa
não vai pagar hora extra por um serviço que ela não solicitou.
Engoli
em seco. Acabo de pegar o cara na maior pregação com a loiraça e ele ainda tem
animo para me humilhar. – Não se preocupe, senhor. Eu não fiquei pensando em
hora extra. Só quis evitar qualquer contratempo com o balancete de amanhã.
Ainda não instalaram internet em minha casa por isso tive que terminar aqui.
Desculpe por te atrapalhar. – Sai cabisbaixa e segui pegando o metrô para o meu
lar. Nunca imaginei que um homem tão sério como ele teria uma atitude tão baixa
quanto se pegar com uma modelo dentro da empresa. Além do meu chefe, havia
outra coisa que me incomodava um pouco na Madison
Publicidade. A empresa é uma das mais conceituadas no ramo de publicidade.
Vivia cercada de modelos e mulheres perfeitas por todos os cantos. A loira
aguada que estava com o Harrison, por exemplo, era quase impecável. Tão bonita
que chega dá raiva. É com mulheres como ela que homens como ele se relacionam,
não com pessoas como eu. Ambos por interesse. Ela quer o dinheiro dele, ele uma
mulher troféu e o que ela tem no meio das pernas. Não que eu esteja com ciúmes.
Claro que não é isso. Não quero me envolver com alguém por um bom tempo, muito
menos se esse alguém for tão estupido.
A
vergonha de ter flagrado o diretor da empresa, deitado sobre o corpo de uma
loira gostosa não me deixou sentir isso, no entanto, durante o banho a mão dele
na coxa dela por dentro do vestido não sai da minha mente. Balancei bruscamente
a cabeça tentando expulsar esse pensamento. O cansaço do trabalho me fez dormir
que nem um anjinho.
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